António Bagão Félix, Ilustração: Nuno Quaresma | jul 01, 2018
Texto de opinião de António Bagão Félix para o Boletim Salesiano n.º 569 de Julho/Agosto de 2018.

A nossa esperança precisa da esperança da juventude. Até porque é nela que reside a fonte maior das esperanças. É ela que nos dá o ânimo para a esperança que está dentro de nós. Na mente, no coração, nas mãos. E no rosto. Porque como pensou Emmanuel Levinas, “o acesso à verticalidade do rosto é, num primeiro momento, ético”. A expressão íntegra do rosto, sem defesa, nua, conduz-nos não tanto ao disfarce, à aparência, ao solipsismo, mas à nossa “pobreza essencial”. E é nos mais novos que o rosto se apresenta mais puro, mais despido, mais autêntico, sem maquilhagem.
Uma expressão una e pluralista que o Papa Francisco exprimiu através da imagem das faces do poliedro: “a união de todas as parcialidades que, na unidade, mantém a originalidade das parcialidades individuais”. Nele (poliedro), nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra. No caso do jovem, é imperativo que nesse poliedro da vida se enobreça o valor do direito-dever.
Tudo isto sempre em nome de valores inalienáveis. Educação, verdade, carácter, trabalho, sensibilidade, sensatez, consciência, compaixão, autenticidade. Em suma, humanismo integral (amor) com a prudência tomista de ter em tudo medida e de nada ser medido por demasiado.
Na sua eloquência da simplicidade, o Santo Padre exorta os jovens para serem os protagonistas da mudança e construtores do mundo, em nome de um futuro de esperança. Para isso é necessário – diz – “vencer a apatia, dando uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas no mundo”. Com fé e caridade cristã, continua Francisco: “Não olhem a vida da varanda, entrem nela. Não tenham uma fé espremida, não sejam cristãos estacionados. A fé é integral, não se espreme”.
Para isso precisam de “pensar bem, ouvir bem, fazer bem”. E pede a todos – jovens e não jovens – que usem com sentido profundamente humano três palavras da ética personalista: “Com licença, obrigado, desculpa”.
Os tempos não favorecem a serena paciência do tempo certo de se ser criança e depois jovem. Basta observar a “socialização uniformista dos sentimentos”. Basta olhar para o ambiente predatório e doentiamente competitivo a que a sociedade e tantos pais sujeitam os mais novos, na escola e diante dos amigos, não raro para satisfazer egoisticamente vaidades e devaneios. Basta determo-nos nas televisões com concursos e testes traumatizantes e expressões indignas de exploração infantil e juvenil de “colarinho branco”. Basta atender ao frenesim consumista e à febre das tecnologias com que se estimulam os jovens à ideia do tudo, sem lhes ter sido ensinada a necessidade austera das escolhas e consequentes renúncias, e onde se estimula a confusão amoral entre o importante, o meramente útil, o ilusoriamente fútil e o desprezivelmente inútil.
O Titanic foi feito por profissionais, a arca de Noé foi feita por amadores. Eis aqui o confronto entre a tecnologia dos meios (técnicos) e a qualidade dos fins (humanos). Aquela não basta, se o que fazemos e empreendemos não tiver um desígnio, uma razão de ser, não tiver alma, não for feito com verdadeiro amor. No caso dos jovens, com sentido de utopia, com fé e espiritualidade e não algemados pela tecnologia impessoal ou impositiva, olhada como um fim e não como um meio ao serviço da pessoa.
Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa Nobel da Paz, no seu vibrante e cativante discurso na ONU em 2013, com a delicadeza e a lucidez de uma menina esventrada na sua infância, falou “das canetas e dos livros como as mais poderosas armas” que os mais novos devem ter.
Não esqueçamos: “Deus é jovem”, assim se chama um dos mais recentes livros do Papa. Vale a pena lê-lo e exprimi-lo na vida de cada um.Houve três “Caminhadas pela vida” de pessoas que se juntaram para dar testemunho público da defesa do direito incondicional à vida. Em Lisboa, no Porto e em Aveiro. Uma iniciativa cívica e apartidária, bem sucedida.
E o que nos informaram a quase totalidade dos media? Zero. Absolutamente zero.
Um despudor por magia da omissão de pseudo polícias dos costumes, selecionando a seu bel-prazer o que deve ser noticiado. Quaisquer vinte arruaceiros à espera de uma equipa de futebol são motivo de notícia, com direito a repetição. Qualquer manifestação sobre o contrário do que a “Caminhada pela vida” defende sobre o aborto, a eutanásia, as barrigas de aluguer, as políticas de natalidade, etc. é objeto de reportagem, diretos e debates. Qualquer ajuntamento por mais insignificante que seja de LGBT tem honras de bom alinhamento e boa página.
Esta iniciativa teve, aliás, o conforto de uma saudação do Papa Francisco aos seus participantes, tendo em conta a “promoção e defesa da vida, contra a cultura do descarte”.
Isto leva-me à segunda omissão. Tive o privilégio de, no Vaticano, participar no Seminário “Repensar a Europa”.
Este evento terminou com uma notável intervenção do Papa Francisco, infelizmente também ignorada pela comunicação social. Nada que me espante diante da primazia espumosa do efémero, do fugaz, do circunstancial, do trivial, da notícia-espectáculo, do burlesco.
Entre outros pontos, Francisco chamou a atenção para o primeiro e talvez maior contributo que os cristãos podem trazer à Europa de hoje: “recordar que esta não é um conjunto de números ou instituições, mas que é feita de pessoas concretas. Infelizmente, constatamos frequentemente que o debate se limita a uma discussão de números. Não há cidadãos, há votos. Não há migrantes, há quotas. Não há trabalhadores, há indicadores económicos. Não há pobres, há limiares de pobreza. A pessoa humana é, deste modo, reduzida a um princípio abstrato, mais cómodo e tranquilizador”.
A seguir referiu: “a família é a união harmónica das diferenças entre o homem e a mulher, e é tão mais verdadeira e profunda, quanto mais for geradora e capaz de se abrir à vida e aos outros. A pessoa e a comunidade são, pois, os pilares da Europa que, como cristãos, queremos e podemos ajudar a construir. Os tijolos de tal edifício chamam-se: diálogo, inclusão, solidariedade, desenvolvimento e paz”.
E alertou-nos: “vive-se um tempo de uma dramática infertilidade. Na Europa há menos filhos – o nosso inverno demográfico –, e são muitos aqueles que são privados do direito a nascer […]. A Europa vive uma espécie de défice de memória”.
Infelizmente, estas referidas omissões são a regra. Digo-o sem rebuço: o conúbio mal disfarçado entre certas ideologias “iluminadas”, que se consideram detentoras do monopólio da verdade, da justiça, da cultura e da sensibilidade e muitos media, quer afunilar o pensamento tornando-o único e reduzir à insignificância a “gente” a que, pejorativamente, chamam conservadora.
Como cristãos, devemos denunciar esta parcialidade injusta e enviesada.
(Por vontade do autor este texto não segue o Novo Acordo Ortográfico)
Rosto
Rosto nu na luz directa.
Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.
Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na angústia do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.
Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem
Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.
Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam..
Sophia de Mello Breyner Andresen, 1919-2004, in Coral, Livraria Simões, 1950
Originalmente publicado no Boletim Salesiano n.º 569 de Julho/Agosto de 2018