Oratório de Valdocco

Dom Bosco começou por entrar no mundo juvenil, como educador, lançando mão de uma forma institucional muito em voga na Itália do seu tempo (e que remonta ao século XVI): o "oratório". Tal instituição vinha a ser um centro paroquial ou interparoquial de doutrina e vida cristã para crianças, adolescentes e jovens, de bom comportamento, ocupando-os durante uma parte do domingo, de manhã ou de tarde (raras vezes todo o dia). Habitualmente, além da doutrina, havia espaço para convívio e diversões. Dom Bosco imprime-lhe, porém uma nova fisionomia e dinâmica, acrescentando ao nome consagrado, oratório, o adjetivo festivo.

Incarnação de uma pedagogia

Vários elementos distinguem o oratório de Dom Bosco dos oratórios tradicionais. Antes de tudo as portas estão abertas não só durante uma parte do domingo, mas durante o dia inteiro, e não só para os meninos de boas famílias e de comportamento correto, mas para toda a classe de rapazes que livremente queiram entrar, dando até particular atenção aos mais rebeldes e aos mais desenraizados da família. De todos os fatores que intervêm no funcionamento do oratório de Dom Bosco, o mais importante é a presença amável e contínua do educador, totalmente empenhado em conseguir que os educandos se sintam envolvidos numa atmosfera de família, realidade por muitos deles desconhecida.
É precisamente na criação do clima de à vontade e de família que reside o núcleo da pedagogia e metodologia educativa de Dom Bosco. As suas primeiras experiências com os rapazes, contactados nas ruas e prisões de Turim, bem depressa o levam a verificar que a triste situação em que vivem, abandonados a si mesmos e aos baldões da sorte, é devida na, maior parte dos casos à ausência da família ou de alguém que, na sua falta, deles se ocupe. Compreende pois a necessidade de lhes proporcionar um ambiente que os aproxime o mais possível do ambiente familiar.

Dada a ausência dos laços de sangue, Dom Bosco relaciona-se com os seus rapazes de modo a levá-los a descobrir na sua pessoa um pai adotivo. A nota da paternidade espiritual é por ele responsável e amorosamente assumida e insistentemente inculcada aos seus colaboradores, uma vez que deve preencher a falta ou insuficiência da família natural. Comportando-se e assumindo-se como pai dos que o não tinham ou o desconheciam, Dom Bosco procura levá-los, através de si, a fazer uma outra descoberta mais importante ainda: a descoberta de Deus Pai, revelado em Jesus Cristo. Sem esta ligação com o Transcendente (religião), sem esta nota da paternidade divina, unida à da paternidade humana, seria impossível compreender cabalmente a pedagogia de Dom Bosco.

Alternando criteriosamente momentos dedicados à formação e vivência religiosa com outros momentos mais largos, dedicados ao divertimento, ao desporto, aos encontros de grupo, a atividades culturais (como o teatro e a música), enfim às mais variadas iniciativas capazes de interessar e promover a juventude, tornam agradável o largo espaço de um dia, passado em ambiente religioso, para rapazes que na sua grande maioria viviam à margem da prática da vida cristã. 

Entre estas iniciativas de formação, além do teatro e da música, importa salientar os cursos de alfabetização que o santo educador começou logo a organizar entre os frequentadores do primeiro Oratório em Turim, quase todos alheios ao ambiente escolar ou mal sabendo escrever o nome.

Ao princípio eram as aulas noturnas, no seguimento da jornada dominical. Depois, pouco a pouco, estas aulas foram-se estendendo pela semana adiante, com um aumento progressivo de alunos. 
O primeiro Oratório de D. Bosco, fixado em Valdocco, bairro periférico de Turim, é ainda hoje o Oratório por excelência e o paradigma de todos os oratórios e demais instituições educativas que, com o andar do tempo, foram proliferando dentro e fora da Itália.
Semelhante iniciativa mostra-nos outra característica do Oratório de Dom Bosco: a sua projeção para além do domingo, a qual não se limita a este aspeto importante da instrução, mas abrange outras formas de acompanhamento dos oratorianos, incluindo visitas aos lugares em que vivem e trabalham ou fazem a aprendizagem de algum ofício e contactos de vária ordem.

O primeiro Oratório de D. Bosco, fixado em Valdocco, bairro periférico de Turim, ficou sendo o Oratório por excelência e o paradigma de todos os oratórios e demais instituições educativas que, com o andar do tempo, foram proliferando dentro e fora da Itália. Para o próprio D. Bosco o Oratório de S. Francisco de Sales em Valdocco (ou o Oratório sem mais) tornou-se como que o habitat natural da sua ação apostólica e educativa e veio a impor-se aos seus filhos como a expressão mais genuína do génio pedagógico do pai e fundador.

Acresce que o Oratório de Valdocco acabou por se transformar, gradualmente, mercê das circunstâncias, numa espécie de cidade dos rapazes. No internato aí construído viviam lado a lado aprendizes e estudantes. Esse enorme complexo – no qual veio a erguer-se também uma basílica dedicada a Nossa Senhora Auxiliadora – era de facto a casa dos sem-teto, a paróquia dos sem-paróquia, a escola dos incapacitados de frequentar qualquer outra escola.

Esta obra típica de humanização e evangelização é ainda hoje – com outros nomes e sob outras formas de organização e funcionamento, dada a sua flexibilidade – aquela que melhor incarna o sistema ou método educativo de Dom Bosco, que ele próprio resume na trilogia: fé, razão e bondade. (A. ANJOS, O Centenário da Obra Salesiana em Portugal, 1894-1994)